“(...) já demandavam à Madeira pessoas das mais elevadas categorias, vindos dos quatro cantos da Europa. O que as atraía nesta ilha era o seu ameno clima e a beleza apregoada por quem uma vez a visitava. Vinham soberanos e aristocratas; sábios e artistas; escritores e poetas; negociantes, milionários e aventureiros de alta estirpe. (…).”1
“(...) já demandavam à Madeira pessoas das mais elevadas categorias, vindos dos quatro cantos da Europa. O que as atraía nesta ilha era o seu ameno clima e a beleza apregoada por quem uma vez a visitava. Vinham soberanos e aristocratas; sábios e artistas; escritores e poetas; negociantes, milionários e aventureiros de alta estirpe. (…).”1

A localização geográfica da ilha, conjugada com a natureza luxuriante e o clima ameno, desde cedo atraiu muitos visitantes. O Porto do Funchal, utilizado como ponto de passagem de exploradores com destino ao Oriente, foi nos séculos XVII e XVIII, local de presença permanente de todo o tipo de viajantes, “(...) mercadores, comerciantes curiosos, aristocratas (…)”2 e escala de constantes expedições científicas, em busca do conhecimento e dos segredos da natureza, que haveriam de divulgar na Europa a amenidade do nosso clima, contribuindo para que a Madeira se viesse a transformar, na segunda metade do século XVIII, numa estância de turismo terapêutico, estatuto mantido ao longo do século XIX com a vinda de poetas, escritores, políticos e aristocratas, entre os quais a Imperatriz Elisabeth da Áustria conhecida por Sissi.
As casas particulares, como as da Rua da Carreira e as quintas na área de Santa Luzia e do Monte, que até então acolhiam muitos dos visitantes, deixaram de dar resposta ao número crescente de hóspedes, o que conduziu à construção das primeiras infra-estruturas hoteleiras, fazendo com que o turismo passasse a ser uma actividade organizada e relevante para a economia da ilha. Tornar mais aprazível a estadia dos turistas na cidade levou a melhorar a iluminação e a limpeza das ruas, a construir vias rodoviárias e implementar novos meios de transporte. No século XX, os transatlânticos que regularmente passavam pelo porto do Funchal deixavam aristocratas abastados e políticos eminentes, como Winston Churchill. Com a construção do aeroporto, nos anos sessenta, intensificou-se o fluxo de turismo assente no hábito de viajar e na vontade de conhecer.


1 Maria Lamas, "Arquipélago da Madeira - Maravilha Atlântica", Funchal, Eco do Funchal, 1956, p. 314.

2 Iolanda Silva (Coor.de Fancisco Faria Paulino, Susana Silva), “O Turismo – elementos para a sua História”, Funchal, Edicarte, 1998, p. 37.

01 | Cais da Cidade

Vista do cais Vista do cais “Desembarque no Funchal”, Isabella de França, “Jornal de uma Visita à Madeira e a Portugal (1853-1854), Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal Postal da 1.ª metade do século XX. Arquivo DRAC Desembarque de um grupo de alemães em viagem de cruzeiro a bordo do Robert Ley. Postal, posterior a 1933. Arquivo DRAC  
A baía do Funchal, local de implantação do cais regional, foi onde desembarcaram os turistas que visitavam a ilha da Madeira, até aos anos sessenta do séc. XX, época da construção do aeroporto de Santa Catarina. Ainda a bordo dos navios que os transportavam, os turistas tinham a primeira imagem da cidade: “É uma cidade pitoresca, belamente situada numa espécie de vasto anfiteatro, os cumes cobertos com árvores e os lados com vilas, jardins e pomares. As casas aproximam-se umas das outras gradualmente, formam elas próprias ruas e descem até ao nível do mar, onde o ilhéu, a casa do Governador, as linhas das casas, a torre de sinalização, a alfândega e a praia negra formam um belo contraste com o azul profundo da arena ou mar.”1
 
A baía do Funchal, local de implantação do cais regional, foi onde desembarcaram os turistas que visitavam a ilha da Madeira, até aos anos sessenta do séc. XX, época da construção do aeroporto de Santa Catarina. Ainda a bordo dos navios que os transportavam, os turistas tinham a primeira imagem da cidade: “É uma cidade pitoresca, belamente situada numa espécie de vasto anfiteatro, os cumes cobertos com árvores e os lados com vilas, jardins e pomares. As casas aproximam-se umas das outras gradualmente, formam elas próprias ruas e descem até ao nível do mar, onde o ilhéu, a casa do Governador, as linhas das casas, a torre de sinalização, a alfândega e a praia negra formam um belo contraste com o azul profundo da arena ou mar.”1
Antes da construção do cais, o desembarque era realizado com recurso a pequenos botes que iam buscar os passageiros aos navios de ligação e os transportavam até à praia de calhau, possuindo “Este mar uma ressaca tão forte que não pode haver desembarque na cidade do Funchal, a não ser que se aproveite o movimento da vaga até se atingir o calhau; (…).”2 Após a construção do cais, finalizada nos anos noventa do séc. XIX, “barcos a remos, transferem os passageiros para o pequeno cais de pedra”3.“(…). A (…) lancha aproxima-se do cais e vem para amarar perto dos degraus de pedra. (…). O cortejo começa lentamente, em direcção à avenida de plátanos. (…).
Há outros dias em que a Madeira fervilha com o movimento de vapores. Três ou quatro grandes paquetes estão ancorados ao mesmo tempo com meia dúzia de pequenos barcos cargueiros a fazerem-lhes companhia.”4 


1 Tradução livre. A. Samler Brown, "Brown’s Madeira Islands and Azores. A practical guide for the use of tourists and invalids with twenty-two coloured maps and plans and numerous sectional and other diagrams", London, Simpkin, Marshall, Ltd, 1932, pp. h14 - h15.

2 Tradução livre. Hans Sloane, in António Aragão, “A Madeira Vista por Estrangeiros 1455-1700”, Funchal, drac, 1981, p. 149.

3 Tradução livre. S.A., "Holiday Tours in Portugal and Madeira". Illustrated Guide, Liverpool, The Booth Steamship Company, 1905, p. 50.

4 Tradução livre. W. H. Koebel, Madeira: Old and New. Illustrated with photographs by Miss Mildred Cossart, London, Francis Griffiths, 1909, p. 93.

02 | Golden Gate

  M - Avenida Arriaga, 29 | H - Todos os dias das 8h0 às 23h00

Vista da Avenida Arriaga no sentido ascendente Vista da Avenida Arriaga no sentido descendente Perspectiva da fachada Norte Vista geral do edifício Postal de finais do séc. XIX, inícios do séc. XX. Arquivo DRAC  
O edifico ainda hoje designado como Golden Gate, localizado na esquina da Avenida Zarco com a Avenida Arriaga, constituía um marco para os turistas do século XIX e XX que visitaram a ilha pela sua posição estratégica relativamente à Entrada da Cidade.
O edifico ainda hoje designado como Golden Gate, localizado na esquina da Avenida Zarco com a Avenida Arriaga, constituía um marco para os turistas do século XIX e XX que visitaram a ilha pela sua posição estratégica relativamente à Entrada da Cidade. O escritor Ferreira de Castro refere que “aquele ângulo do Funchal era, entre as esquinas do mundo, um dos mais dobrado”, pois “davam volta ao cunhal do Golden Gate, diariamente homens e mulheres de todas as nações.”1. O Hotel Golden Gate foi instalado na época em que o turismo na Madeira era eminentemente terapêutico, tendo sido ampliado nas primeiras décadas do século XX. Integrava um café-restaurante, cuja esplanada se constituía ponto de encontro e de lazer. A importância conferida ao Golden Gate é-nos transmitida por Alan Lethbridge, em 1924: “(…). Sente-se numa cadeira de manufactura local na esplanada do Golden Gate, um hotel tão conhecido em Xangai como em S. Francisco, e observe a multidão tumultuosa que se junta maravilhosamente, vinda de bairros escondidos logo que uma sirene anuncia a presença de um paquete.”2.


1 Rui Firmino Faria Nepomuceno, "A Madeira Vista por Escritores Portugueses (séculos XIX e XX)", Funchal, Empresa Municipal Funchal 500 Anos, 2008, p. 105.