“(…) no período românico os (...) capitéis e cornijas [preenchem-se] com animais fantásticos e seres terrífcos, a par de episódios bíblicos (…), no período gótico (…). Os capitéis entregam-se (…) [a] descrever a Natureza, (…) clara e
desprovida de mistério. (…) [os bestiários] ficaram (…) confinados à margem dos edifícios, aos pequenos recantos, às gárgulas, às cornijas, (…) nos inícios do século XVI, (…) os edifícios, abrem[-se] à esmagadora presença da emblemática.
(…). No período manuelino (…); [voltam a] ocupar lugares aparentemente nobres. (…). O Carnaval, o "festum stultorm" o “mundo às avessas” era posto em cena para todos. (…).”1
“(…) no período românico os (...) capitéis e cornijas [preenchem-se] com animais fantásticos e seres terrífcos, a par de episódios bíblicos (…), no período gótico (…). Os capitéis entregam-se (…) [a] descrever a Natureza, (…) clara e
desprovida de mistério. (…) [os bestiários] ficaram (…) confinados à margem dos edifícios, aos pequenos recantos, às gárgulas, às cornijas, (…) nos inícios do século XVI, (…) os edifícios, abrem[-se] à esmagadora presença da emblemática.
(…). No período manuelino (…); [voltam a] ocupar lugares aparentemente nobres. (…). O Carnaval, o "festum stultorm" o “mundo às avessas” era posto em cena para todos. (…).”1

O imaginário e o fantástico remetem-nos para a esfera do simbólico, da fantasia, da crítica social, do sarcasmo e do exótico, enfim, para a esfera do carnavalesco, da imagem de um “mundo às avessas”, que parece distante da realidade ou que a exacerba.
Os sécs XV e XVI, apresentam-se como os de maior produção de elementos simbólicos, ligados ao manuelino e à época dos descobrimentos. As representações do bestiário medieval surgem como uma manifestação “de um contra-poder enraizado em hábitos vernaculares, pagãos e populares”2, de que encontramos exemplares nas gárgulas da Alfândega e no cadeiral da Sé. Neste discurso se inserem também os “grutescos” da época manuelina onde “aos temas clássicos, vegetais e animais, juntavam-se os bestiários medievais, a fantasia, o fantástico, o simbólico e o festivo”3 e que podemos encontrar no tecto da Sé e na pintura de Nossa Senhora do Amparo, actualmente no Museu de Arte Sacra.
Nos sécs XVII e XVIII, o fantástico surge aliado ao exótico dos Novos Mundos. O contacto com outras civilizações conduziu à percepção do “outro”, homem diferente do europeu ao conhecimento dos animais desses mundos, e à sua representação na iconografia, como acontece, por exemplo, com os índios e com os elefantes.
Como um legado do século anterior, as máscaras de folhagem, provavelmente ligadas aos ciclos das colheitas, apresentam caras humanas que têm na sua composição elementos naturalistas a simular os cabelos ou que lhes saem (ou entram) pela boca. O sol surge também como símbolo da realeza e da divindade.
Nos sécs. XIX-XX, com a grande implantação dos chafarizes e fontes, o fantástico surge nas carrancas que os decoram, e que compõem as bicas dos mesmos, retomando elementos iconográficos do classicismo.



1 Paulo Pereira (coord.), História da Arte Portuguesa, vol. II, Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, pp. 139-140.

2 Paulo Pereira (coord.), História da Arte Portuguesa, vol. II, Lisboa: Círculo de Leitores, 1995, p. 115.

3 Lina Oliveira, “Estrutura e decoração dos tectos de alfarge” in Monumentos, n.º 19, Setembro de 2003, Lisboa: DGEMN, p. 47.

01 | Assembleia Legislativa, antiga Alfândega

  M - Avenida do Mar e das Comunidades Madeirenses | H - Seg. a Sex. das 9h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30

Perspectiva da fachada principal (Nascente) Perspectiva da fachada lateral Norte Gárgula com forma de carranca. Cantaria, fachada Norte. Séc. XVI (inícios) Gárgula com forma de galo. Cantaria, fachada Norte. Séc. XVI (inícios) Gárgula. Cantaria, fachada Norte. Séc. XVI (inícios)  
A antiga alfândega, concluída em 1519, mantém actualmente características de uma arquitectura manuelina, apesar das várias intervenções sofridas ao longo dos séculos. Essas características encontram-se, sobretudo, no interior. No exterior, apenas a fachada norte apresenta elementos manuelinos, com destaque para as suas gárgulas, fantasiosas e de carácter fantástico, símbolos do caos e das forças malignas e constituindo, simultaneamente, um antibestiário, cuja função era a de afastar o Mal. 
 
A antiga alfândega, concluída em 1519, mantém actualmente características de uma arquitectura manuelina, apesar das várias intervenções sofridas ao longo dos séculos. Essas características encontram-se, sobretudo, no interior. No exterior, apenas a fachada norte apresenta elementos manuelinos, com destaque para as suas gárgulas, fantasiosas e de carácter fantástico, símbolos do caos e das forças malignas e constituindo, simultaneamente, um antibestiário, cuja função era a de afastar o Mal.
Nas figuras das gárgulas da alfândega, encontramos representações de monstros, símbolos das forças irracionais e, simultaneamente, guardiões dos lugares, com a função de afastar os medos. O mesmo papel se atribui a outras figuras, como o galo ser vigilante que afasta as más influências da noite, simbolizando a luz nascente.

02 | Sé do Funchal

  M - Rua do Aljube | H - Seg. a Dom. das 07h00 às 12h00 e das 16h00 às 18h30

Grifo com um lagarto na boca. Pormenor do friso to tecto da nave central. Séc. XVI (inícios) Bucrâneo com elementos vegetalistas ladeado por águias. Pormenor do friso da nave lateral sul. Pintura sobre madeira. Séc. XVI (inícios) Golfinho. Pormenor do friso do transepto. Pintura sobre madeira. Séc. XVI (inícios) Touro alado em folha de flandres. Pormenor do túmulo, nave lateral Sul. Séc. XVI Rosto do diabo em cantaria pintada. Púlpito. Séc. XVI (inícios) Dragão. Pormenor do capitel no arco triunfal da capela-mor. Séc. XVI Javali a segurar uma roca e um fuso. Pormenor decorativo da misericórdia do lado Sul do cadeiral. Séc. XVI (inícios)  
A construção da Sé do Funchal teve início no ano 1493, ficando concluída em 1517. Edificada sob os auspícios de D. Manuel I, não é de admirar a profusão de elementos decorativos manuelinos existentes nos vários espaços do edifício, numa época fortemente marcada pelo simbolismo. Este surge também nas diversas tampas sepulcrais, do século XVI, que ostentam a iconografia cristã da época medieval, continuada a ser utilizada no Renascimento. 
A construção da Sé do Funchal teve início no ano 1493, ficando concluída em 1517. Edificada sob os auspícios de D. Manuel I, não é de admirar a profusão de elementos decorativos manuelinos existentes nos vários espaços do edifício, numa época fortemente marcada pelo simbolismo. Este surge também nas diversas tampas sepulcrais, do século XVI, que ostentam a iconografia cristã da época medieval, continuada a ser utilizada no Renascimento. A tampa do túmulo de João Rodrigues, provavelmente um comerciante com negócios em Inglaterra, encontra-se localizada na nave lateral sul da Sé e é constituída por lâminas com inscrições e medalhões quadrilobados, com os atributos dos quatro evangelistas em bronze, gravados com a técnica do estresido. Os atributos são: o anjo, de São Mateus, símbolo do invisível; o leão alado, de São Marcos, associado à ressurreição, à força e à majestade; a águia, de S. João, símbolo da renovação; o boi alado, de São Lucas, simbolizando a força, o sacrifício e a paciência.

Dos elementos manuelinos, o que mais se destaca no edifício são os tectos mudéjares, cuja importância artística, para além da obra de carpintaria, se patenteia nas pinturas ornamentais, singulares no território nacional. Estas pinturas, renascentistas, apresentam uma temática de grutescos de inspiração clássica, com representações de seres fantásticos, figuras híbridas e ele