“(...) muros e ventanas ostentam pomposas colchas de buganvílias em flor, grandes manchas de vermelho e de roxo que dão às ruas alacre fisionomia. (...).”1
“(...) muros e ventanas ostentam pomposas colchas de buganvílias em flor, grandes manchas de vermelho e de roxo que dão às ruas alacre fisionomia. (...).”1

A representação da flor e de uma vasta iconografia naturalista enquadra-se na decoração de determinados elementos estruturais da arquitectura religiosa, na pintura e ornamentação dos tectos em madeira e em estuque, na azulejaria e, em especial, nas artes decorativas, nomeadamente nas produções de talha, surgindo associada a uma vertente de representação, por vezes, simbólica ou realista.
Na arte manuelina, as alcachofras prevalecem como um dos motivos mais utilizados e “parece tratar-se de um símbolo de regeneração, uma vez que depois de queimadas tornam a florescer, sendo por consequência sinónimo da Ressurreição de Cristo.”2
No Renascimento e no Maneirismo, entre os séculos XVI e meados de XVII, a flor estilizada, os arabescos e as folhas de acanto ganham relevo e estendem-se à decoração dos tectos e da talha dourada. Na azulejaria difundem-se vários motivos vegetalistas e um padrão chamado “camélia”. Em finais do século XVII, a teatralidade do Barroco insere a iconografia da flor em composições dinâmicas de vasos floridos, festões e grinaldas, enquanto que as folhas de acanto preenchem de forma profusa diversos componentes dos retábulos e cenários da azulejaria. No Neoclássico e no Romantismo a natureza faz-se representar com maior intensidade e de maneira mais real. O potencial decorativo das flores mantém-se como fonte de inspiração artística e repercute-se a nível regional, dado o interesse pela divulgação da botânica e flora madeirense, até à primeira metade do século XX.


1 Rui Firmino Faria Nepomuceno, "A Madeira Vista por Escritores Portugueses (séculos XIX e
XX)", Funchal, Empresa Municipal Funchal 500 Anos, 2008, p. 105.

2 Paulo Pereira, “História da Arte Portuguesa: Do Gótico ao Manuelino, volume II, s. l., Círculo de Leitores, 1995, p. 121.

01 | Sé do Funchal

  M - Rua do Aljube | H - Seg. a Dom. das 07h00 às 12h00 e das 16h00 às 18h30

Capela de Nossa Senhora de Lurdes Tecto da capela de Nossa Senhora de Lurdes. Pormenor das abóbadas nervuradas. Séc. XVI Fecho em cantaria, da abóbada nervurada. Capela de Nossa Senhora de Lurdes, séc. XVI Colunas na capela de Nossa Senhora de Lurdes. Séc. XVI Capitel. Capela de Nossa Senhora de Lurdes, séc. XVI Capitel. Capela de Nossa Senhora de Lurdes, séc. XVI Pormenor do tecto hispano-mourisco. Pintura sobre madeira, séc. XVI Pormenor do retábulo-mor. Motivo em talha dourada introduzido no séc. XVII  
As flores – esculpidas em cantaria e conjugadas com representações de figuras fantásticas e simbólicas do imaginário da época – aparecem nas ornamentações manuelinas dos capiteis dos colunelos e nos fechos das abóbadas nervuradas das capelas da cabeceira da Sé, que sobre aqueles descarregam.
As flores – esculpidas em cantaria e conjugadas com representações de figuras fantásticas e simbólicas do imaginário da época – aparecem nas ornamentações manuelinas dos capiteis dos colunelos e nos fechos das abóbadas nervuradas das capelas da cabeceira da Sé, que sobre aqueles descarregam. Os motivos florais estilizados, segundo alguns autores, com raízes no românico, ocorrem também nas pinturas maneiristas do magnífico tecto em técnica de alfarge que cobre as naves e o transepto do templo. De influência mudéjar, a construção deste tecto foi proporcionada pela magnífica floresta indígena da ilha nos primórdios da descoberta, fruto da amenidade do clima. Os elementos estilizados – rosas e alcachofras – eram espécies presentes nos jardins da época, jardins descritos por Gaspar Frutuoso no século XVI como possuindo “muita hortaliça de couves murcianas, berengelas e cardos e da mais que há, e pomar de árvores de espinho, palmeiras, aciprestes, pereiras, romeiras e toda frescura que se pode ter de frutas e ervas cheirosas (…).”1 Pequenas flores marcam também as intersecções do fino rendilhado em talha dourada, que dá a ilusão de suportar a platibanda ricamente trabalhada do sobrecéu do retábulo manuelino da capela-mor, peça com a importância acrescida de ser a única desta época no país que se encontra ainda “in situ”.


1 Gaspar Frutuoso, “Livro Segundo das Saudades da Terra”, Açores, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1968, p. 114. 

02 | Museu de Arte Sacra

  M - Rua do Bispo, 21
H - Ter. a Sab. das 10h00 às 12h30 e das 14h30 às 18h00. Dom. das 10h00 às 13h00

Pormenor da pintura do “Tríptico Descida da Cruz”. Escola Flamenga, séc. XVI Pormenor da pintura “Santa Maria Madalena”. Escola Flamenga, séc. XVI Pormenor da pintura “Cristo no Túmulo”. Escola Portuguesa (?), segundo quartel do séc. XVI Pormenor da Cruz Processional. Prata dourada, relevada e cinzelada, primeiro quartel do séc. XVI Pormenor decorativo. Casula de linho e seda bordada a matiz, inícios do séc. XVIII Pormenor decorativo. Bandeja de prata cinzelada e relevada, inícios do séc. XVII  
A presença da flor, normalmente estilizada e inspirada nos ornamentos da época, é-nos revelada pela minúcia e pelo realismo descritivo da pintura flamenga do século XVI e pela pintura portuguesa sobejamente influenciada por ela; das duas, com o seu cromatismo exuberante, a qualidade do desenho e a mestria no uso da perspectiva, existem excelentes exemplos no espólio do Museu de Arte Sacra do Funchal,
A presença da flor, normalmente estilizada e inspirada nos ornamentos da época, é-nos revelada pela minúcia e pelo realismo descritivo da pintura flamenga do século XVI e pela pintura portuguesa sobejamente influenciada por ela; das duas, com o seu cromatismo exuberante, a qualidade do desenho e a mestria no uso da perspectiva, existem excelentes exemplos no espól