"(...) Tem preciosos jardins, & hervas tam odoriferas, que affirmão os mareantes, que mais de dez legoas ao mar deyta esta Ilha de si huma fragrância, & cheyro tam confortativo, & suave, que em grande parte alimenta aos que o percebem."
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"(...) Tem preciosos jardins, & hervas tam odoriferas, que affirmão os mareantes, que mais de dez legoas ao mar deyta esta Ilha de si huma fragrância, & cheyro tam confortativo, & suave, que em grande parte alimenta aos que o percebem."1
A amenidade do clima da ilha desde cedo proporcionou o aparecimento de recintos ajardinados, concebidos como espaços de repouso, de convívio e de relacionamento humano com a natureza. Durante os finais do século XVI, Gaspar Frutuoso descreveu o Funchal com “(…) formosas quintas, ornada de ricos pomares e (…) enfeitada com artificiosos e deleitosos jardins de várias e curiosas ervas [medicinais] e flores; (…)”2 “(…) e umas casas mui ricas com seus jardins de trás (…)”3 em espaço murado.
A partir do século XVII, o incremento das rotas marítimas e o interesse pela botânica conduziram à introdução de novas plantas, que aclimatizadas à Ilha, vieram enriquecer os jardins das residências e, em especial, das quintas nascidas à volta da cidade, nos séculos XVIII e XIX, (estas, com um cariz diferente das descritas por Gaspar Frutuoso), as quais se espraiavam pela encosta acima, até ao Monte, com uma vegetação luxuriante e exótica, transformando-se num reduto de plantas de todo o mundo. Influenciados pela estética romântica e pelos jardins ingleses, estes ambientes ajardinados incluíram as espécies nativas e as importadas, que se adaptaram e prosperaram, rodeando lagos, riachos e fontes de repuxo. Em finais do século XIX, a vegetação exótica e botânica alargou-se aos espaços públicos. Com a sua abertura ao público em 1885, o Jardim Municipal, tornou-se no novo local de sociabilidade dos funchalenses, que ali se deslocavam para ouvir a banda filarmónica tocar. No século XX, a criação do Parque de Santa de Catarina, projectado seguindo um novo conceito de arquitectura paisagista, teve por fim dotar a cidade de um amplo espaço verde, com estruturas de lazer e de recreio para a população.
1 António Cordeyro, "Historia Insulana das Ilhas a Portugal Sugeytas no Oceano Occidental, Lisboa, officina de Antonio Pedrozo Galram, 1717, p. 77.
2 Gaspar Frutuoso, “Livro Segundo das Saudades da Terra”, Açores, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1968, p. 100.
3 Gaspar Frutuoso, "op.cit"; p. 116.