"(…) esta presemte carta nos praz a (…) fazermos cidade (…) e tenha todas as ymsinyas que has cidades de nosos Reygnos pertemce teer. (…)"1
"(…) esta presemte carta nos praz a (…) fazermos cidade (…) e tenha todas as ymsinyas que has cidades de nosos Reygnos pertemce teer. (…)"1
A abertura da Europa ao mundo nos séculos XV e XVI levou a uma substancial renovação cultural. O espírito Humanista que se desenvolveu nesta época, em que a curiosidade e a vontade de saber imperavam, deu origem a um grande impulso de inventividade técnica. Foi instituída a prática da observação metódica da natureza com o objectivo de obter o domínio do meio natural, verificando-se o desenvolvimento das ciências e das técnicas de navegação. Essas técnicas acabaram por valorizar o espaço Atlântico, conduzindo a um intrincado leque de rotas de navegação e comércio que ligavam o velho continente ao litoral africano, americano e asiático. Neste panorama, as ilhas actuavam como verdadeiros centros de manutenção e de apoio à navegação; o Funchal afirmou-se como um importante centro urbano no Atlântico impondo-se enquanto vila portuária comercialmente próspera. O comércio do açúcar pautava o ritmo da vida das populações e definia o desenvolvimento de um núcleo urbano mercantilista que se organizava inicialmente numa área de menor declive, entre os pólos primitivos de Santa Catarina e de Nossa Senhora do Calhau, desenvolvendo-se no sentido da linha da costa. A cultura da cana sacarina, incentivada pelo Infante D. Henrique, cedo se mostrou uma próspera fonte de rendimento, permitindo a edificação de diversos templos com alfaias preciosas, imagens e pinturas sobre madeira, provenientes de países europeus com maior incidência para a Flandres, o que deu origem a um verdadeiro acervo de arte flamenga na região.
O local onde a cidade do Funchal se implantou e cresceu apresentava um harmonioso declive, criando um anfiteatro natural, rasgado por três caudalosas ribeiras. Abrigado dos ventos do norte e com um clima temperado, tinha todas as condições naturais para a génese de uma das três capitanias do arquipélago. Inicialmente, criaram-se dois pólos populacionais, maioritariamente compostos por casas em madeira: um em Santa Catarina; outro na zona da Nossa Senhora do Calhau actualmente conhecido por Santa Maria. Foi entre estes dois núcleos populacionais que se desenvolveram, ao longo da costa, os primeiros arruamentos, a saber: a rua de Santa Maria, a Este da Ribeira de João Gomes, e a rua dos Mercadores, a Oeste.
Estas primitivas habitações em madeira, pela sua vulnerabilidade perante os incêndios e também por imposição camarária (entre os anos de 1472 e 1481) foram sendo substituídas por casas de pedra cobertas por telha, umas térreas e outras sobradadas. Com a intensificação do comércio açucareiro, expandiu-se a malha urbana e a qualidade construtiva dos edifícios aumentou e ganhou outra dignidade, ao mesmo tempo que outros arruamentos, praças, capelas e igrejas foram surgindo, conforme nos conta o italiano Leonardo Torriani – “O comércio é muito importante e feito com navios que vêm a esta cidade do Funchal de todas as partes de África dos cristãos, de Itália, Espanha, França, Alemanha e Escócia, pelo que é chamada por sobrenome a pequena Lisboa.”2
Nesta fase, a cidade do Funchal começou a desenvolver-se ao longo do curso das ribeiras, passando do inicial modelo urbanístico ao longo da costa para um modelo urbanisticamente, situado entre as ribeiras de São João e de Santa Luzia, e ganhando o estatuto de sede episcopal e local de comércio cosmopolita.
A planta do Funchal que acompanha este roteiro tem uma sobreposição da malha urbana correspondente à época que este trata, de modo a que o visitante se aperceba da localização espacial dos imóveis do período em questão e podendo concluir que grande parte da malha da época resistiu até aos nossos dias.
Local inexplorado até então, os navegantes portugueses encontraram em 1419 uma ilha repleta de floresta e abundante em fauna e flora. Após o necessário desbravamento da mata, fixaram-se numa baía onde a cidade do Funchal se viria a implantar. “(…) vendo que se não podia com trabalho dos homens desfazer tanto arvoredo que estava nesta ilha desde o principio do mundo ou da feitura della, e para o consumir, e se lavrarem as terras, e aproveitar-se dellas era necessario por-lhe fogo; e como quer que, com o muito arvoredo e pela muita antiguidade, estava delle derribado pelo chão, e delle seco em pee, apegou o fogo de maneira neste valle do Funchal que era tão bravo que, quando ventava de sobre a terra, não se podia soffrer a chama e quentura delle, e muitas vezes se acolhia a gente aos ilheos e aos navios até o tempo se mudar; e, por ser o valle muito espesso assi de muito funcho, como de arvoredo, atiou-se de maneira o fogo, que andou sete annos apegado pelas arvores, e troncos, e raízes debaixo do chão, que se não podia apagar (…)”3
Para além da abundância referida por Gaspar Frutuoso, a qualidade das espécies destacou-se, conforme nos conta Giulio Landi: “Esta Ilha produz cedros silvestres tão altos e grossos que espalham um tal odor, que não se pode sentir coisa mais suave nem mais agradável. E estes cedros nascem espontaneamente nos altos da Ilha, e os nobres da região empregam-nos para fazer mesas, camas, casas e cadeiras. O Cardeal Ambrósio, que já foi legado em toda a França, mandou levar da Madeira para Ruão muitas tábuas de cedro para ornamentar os pórticos e as paredes de algumas câmaras e balcões do palácio que ele tinha mandado construir junto de São Odoveo”4
Esta abundância de madeira de superior qualidade permitiu aos primeiros colonizadores (1425) o aproveitamento desta para a construção, como é o caso do tecto da Sé catedral em madeira de cedro da ilha, mas também para a sua exportação como nos conta Landi no seu excerto. A construção naval, de extrema importância na época, também beneficiou muito desta abundância e qualidade das madeiras da ilha.
1 Carta régia de D. Manuel I elevando o Funchal à categoria de cidade em 21 de Agosto de 1508. Arquivo Regional da Madeira. "Registo Geral da Câmara Municipal do Funchal", Tombo I.
2 José Manuel de Azevedo e Silva, «Funchal - Do Estado Nascente da sua Urbanização ao Estado Institucional: Etapas, Ritmos e Funções», in "Revista Islenha", fasc. nº 12, Jan. - Jun. 1993, p.21.
3 Gaspar Frutuoso, "As Saudades da Terra", Fac-Símile, s.l., Edição Empresa Municipal Funchal 500 Anos, p.64.
4 António Aragão, "A Madeira Vista Por Estrangeiros 1455 - 1700", Funchal, Secretaria Regional de Educação e Cultura - Direcção Regional dos Assuntos Culturais, 1981, p.86.